quinta-feira, 25 de março de 2010

A governança corporativa cria valor para os acionistas?

Quem responde é Pedro Tavares em um excelente comentário extraído da Revista Capital Aberto (http://www.capitalaberto.com.br)

"O tema governança corporativa como um dos assuntos mais em voga nos últimos anos no ambiente corporativo nos faz indagar: a adoção de padrões diferenciados de controle e gestão leva mesmo a um aumento de riqueza por parte dos detentores de ações?

Essa pergunta tem o seu devido sentido. Afinal, para uma companhia adaptar-se a um padrão de governança como, por exemplo, o requerido pelo Novo Mercado, há custos de diversas naturezas. Dentre eles, a composição do capital somente por ações ordinárias, a criação de um conselho de administração e a consequente contratação de membros independentes, a divulgação de informações financeiras em padrões além do BR Gaap e da extensão do tag along para todos os acionistas. Mas será que, em geral, esses custos surtem algum efeito no valor das companhias?

Os estudos sobre o assunto indicam que sim. Há evidências de que a melhoria das práticas de governança implica aumentos significativos no valor e na liquidez das ações, reduz o custo de capital e atrai investidores dispostos a pagar mais por títulos de empresas com boas práticas, inclusive em mercados emergentes. É fato que investidores estrangeiros tendem a investir menos em companhias de países com baixa proteção a minoritários e alta concentração de controle, independentemente de sua situação financeira. Um dos estudos — realizado no mercado acionário italiano — indica que classes de ações com direitos distintos possuem diferenças de valor de até 80%.

Em 2007, uma pesquisa realizada pela Stern Stewart verificou se as companhias brasileiras que anunciaram sua migração para o Nível 2 ou o Novo Mercado trouxeram algum tipo de benefício para seus acionistas. Para a obtenção dos resultados, foi utilizada uma metodologia conhecida nos meios acadêmicos como estudo de eventos, em que são observados os retornos das ações em janelas de análise de um, três e cinco dias ao redor da data do anúncio em relação ao retorno esperado. Este, por sua vez, é calculado em função do beta (o quanto uma ação varia em relação a um determinado índice de mercado) de cada empresa. Na tentativa de eliminar ruídos que contaminassem os resultados, foram selecionadas somente empresas com boa liquidez e que não tivessem divulgado fato relevante durante a janela de análise. Os resultados comprovam que esse anúncio produz retornos 5% acima do mercado nas janelas de cinco dias. Ou seja, há criação de valor na migração tanto para o Nível 2 quanto para o Novo Mercado.

Um outro estudo1 procurou saber se havia algum elemento associado à diferenciação no retorno acionário das empresas que foram levadas recentemente ao mercado de ações brasileiro. Dentre os fatores analisados (o tamanho da empresa e da oferta, o percentual da oferta primária, o free float e a alavancagem, por exemplo), a presença de fundos de private equity (PE) no capital de algumas das empresas no momento de seus IPOs ajudou a explicar performances superiores às do índice de mercado e de companhias que não possuíam esse tipo de acionista. Usualmente, os fundos PE elevam os níveis de governança corporativa de forma a aumentar o alinhamento de interesses entre os administradores e acionistas, além de aplicar outras ferramentas de gestão.

O que podemos concluir da leitura de todos esses trabalhos é que, no Brasil ou no exterior, o estabelecimento ou a melhoria das práticas de governança afetam positivamente o preço das ações. Por sua vez, empresas localizadas em mercados sem a regulamentação devida e/ou práticas disseminadas de governança terão suas ações negociadas com descontos em relação a seus pares pertencentes a mercados em que essas práticas estão mais difundidas."

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